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"Defesa e Divulgação da Língua
 e Cultura Portuguesa"

 

Ciclo de Palestras
Álvaro Ribeiro e a Filosofia Portuguesa
- Bibliografia Geral

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07




Vários Autores

Coordenação

Paulo Samuel

Bibliografia
Joaquim Domingues

COLECÇÃO LUSÍADA
Nº 7 | 288 páginas | 1995
Formato: 160 x 230 mm

P.V.P. 15,00€
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«Maior é o número dos filósofos que cogitam, meditam e especulam, sem que os seus contemporâneos sequer suspeitem, do que o número daqueles que pretendem tornar-se célebres com exibir erudição aprendida em arquivos, bibliotecas ou museus» (A Arte de Filosofar, p. 9).

«Filosofar não é, nem escrever, nem falar. É pensar em juízo perfeito, e exprimir esse juízo tão perfeitamente quanto foi pensado, demonstrando em simultâneo como se concluiu tal juízo. Do ponto de vista existencial, a filosofia não se exprime necessariamente, nem na escritura, nem na literatura, ainda que de ambas possa socorrer-se, mas apenas enquanto recursos comunicantes, ou comunicacionais. Agora, nem o filósofo é necessariamente escritor, ou orador, nem o escritor e o orador são necessariamente filósofos. Estamos perante diferentes categorias de hábito, e mesmo de acção. As categorias que se predicam da escritura e da literatura não se predicam necessariamente da filosofia. E o silogismo é uma verdadeira escola. Enquanto a definição se enuncia por conclusão, sem necessidade de mostrar em que se baseia, a conclusão do silogismo enuncia-se mediante o silogismo. Ele contém o como se chega a uma conclusão.

Todo o excessivo é defeito. O prolóquio de que a gordura é formosura só tem veracidade quando a gordura tem o grau de meio termo. Se for enxundiosa, nem será bela, nem será eficaz. O termo médio compreende a justeza entre o defeito e o excesso.

O atleta não pode ser muito pesado, nem convém que carregue peso. Quanto mais leve, melhor correrá. Perdoe-se a simplicidade rudimentar da imagem, se dissermos que o burro caminha melhor, e com maior cómodo, se for alijado da carga. Algo disto inere aos rudimentos da arte de filosofar: saber muitas coisas até pode acarretar prejuízos de forma, mas dominar as regras essenciais, e quantos menos regras forem necessárias melhor, constitui graça de primeira instância. O caminhante caminha melhor sem carga, se, em vez de um bornal com livros, levar na mente as linhas de enunciação, de construção e de demonstração do conhecimento das coisas, das ideias e dos juízos. Dominar as regras de base, o ensino primário elementar e, por via dele, ascender no conhecimento. A sobriedade de meios equivale ao que os medievais, e ainda melhor Nicolau de Cusa, designavam por docta ignorantia, a qual consiste em deter a primícia do saber: a arte de o atingir. A esta característica orgânica da arte atribuía Aristóteles a vantagem de se formular “com módicos recursos”, que possam “servir no maior número possível de casos” (Tópicos, 164 b).

Detidas e exercidas as regras de base, governados os modestos recursos, porque filosofar é uma arte simples e módica - que se pratica mediante os modos - o filósofo ascende e transcende e, à semelhança do que ocorre nos chamados métodos solitários, sobe do simples para o complexo, do que ignora para o que irá conhecer, como se desde sempre o conhecesse e, enfim, de transitar da ignorância para a sapiência. Algo lhe será revelado, mas este revelado aparece como um acréscimo. Em filosofia, basta conhecer as regras: tudo o mais vem por acréscimo: ‘’Ascender [...] da palavra escrita à palavra ouvida, como quem transita do sólido para o fluído, não se contentar com ouvir mas tentar imaginar, para que a razão mais subtil atinja o grau de inteligência” (A Arte de Filosofar, p. 244).

A arte de filosofar poderia definir-se, caso se evite a radicação mecanicista, como um aparelho para filosofar, ao modo que vem no organon de Aristóteles: a construção do órgão, ou aparelho, para o devido feito. E, parafraseando estilos de dizer de Bergson, dir-se-ia “une machine à faire de la sapience” - uma máquina de fazer sapiência.

Comparando à construção civil, eis as pedras que são as palavras, eis a argamassa, que é as ideias, eis o projecto, que é a gramática. O pensamento não tem mais recurso do que este. Afinal de contas, tudo se revela em palavra. Os números também são palavras. Orais e escritas, verbas, pelas quais caminhamos, letra a letra, soletrando, procurando ver sob a letra.

O saber filosófico compara-se a uma ascenção, como vem descrita no fragmento de Parménides acerca da via da verdade. Ainda está por escrever a análise comparativa entre A Arte de Filosofar de Álvaro Ribeiro e esse fragmento paidêutico de Parménides, autor espiritualmente irmão de Álvaro, enquanto de Marinho se dirá ser muito mais gémeo de Heraclito.

O primeiro degrau da ascenção é a língua e, no caso, a língua portuguesa, uma vez que ao homem é propício filosofar na língua mátria, vivenciada, e menos propício filosofar numa língua estrangeira, adquirida, e a intermitências utilizada. Por isso que a língua “vale, para cada homem que a cultiva, de caminho para integração numa comunidade espiritual” (ibid. p. 34). A esta “comunidade espiritual” equivale por inteiro a ideia de “sociedade tradicional”, mencionada em O Problema da Filosofia Portuguesa: uma sociedade com uma tradição, a caminhar na modernidade.»

 

  Pinharanda Gomes

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