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"Defesa e Divulgação da Língua
 e Cultura Portuguesa"

 

João Bigotte Chorão
O Espírito da Letra

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COLECÇÃO LUSÍADA
Nº 30 | 316 páginas | 2004
Formato: 160 x 230 mm

P.V.P. 17,00€
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«O grande desafio que se põe hoje à literatura portuguesa é desviar-se do que a desvaloriza e descaracteriza - o ideologismo, o exibicionismo, o mimetismo - para tentar ser ela própria, como expressão do homem português e do drama nacional. E o drama nacional tem por nome crise de identidade […].

Mass media é, como se sabe, uma expressão que significa “meios de difusão colectiva”, e a colectivização espreita a cultura - sempre uma forma de singularidade e de compromisso pessoal - para diminuí-la. Já se escreveu que “a cultura de massa é [ ... ] em primeiro lugar uma cultura de entretenimento (divertissement). Ela introduz-se no lazer (loisir) e para o lazer” (Encyclopaedia Universalis, 5, 230). Ora, a cultura é mais que um passatempo ou ocupação de tempos livres, porque compromete o homem todo e a existência toda. Cultura significa escolha, activo espírito crítico, enquanto o destinatário da comunicação de massa se coloca ou é colocado numa situação passiva, de quase infantilismo.

Embotadas as faculdades críticas pela “cultura de massa”, a hora é propícia à “criação colectiva”, desiderato último dos regimes totalitários, apostados na anulação da diferença e da identidade. O criador da obra única e irrepetível é suspeito de pecado ou delito de individualismo. O intelectual colectivo, correia de transmissão de uma ideologia ao serviço das massas, é, na cidade futura visionada pela Utopia, o produtor - sim, o produtor - de artefactos culturais de grande consumo. Aí, nessa cidade sem rosto humano, o escritor será um técnico especializado de comunicação de massa, um divulgador de consignas e de modelos preestabelecidos. Não se comparou já “o modelo estandardizado de produção” dos nossos dias ao papel desempenhado, no seu tempo, pelas “regras do teatro clássico ou da retórica poética”? (cf. Encyclopaedia Universalis, ibid.). A função do escritor, numa sociedade de tal modo planificada que não deixe espaço à fantasia, será a de compilar e adaptar textos, hábil rewriter na manipulação de produtos normalizados, qualquer coisa de insubstancial como um remake, que está para o quadro original como a reprodução em série.

Essa tal “criação colectiva” talvez traga à nossa memória a Idade Média, evocada no começo deste texto como uma época eminentemente visual. Mas o que distingue esta nova Idade Média da velha e genuína época das catedrais é o espírito: tudo, quase tudo sagrado naquele tempo, tudo, quase tudo profano e, pior que profano, profanado, em nosso tempo.

Se a “universalização da técnica” ameaça a nossa liberdade, a nossa privacidade, a nossa identidade, impõe-se a todos nós - educadores, escritores, cultores das ciências humanas - uma permanente resistência com as armas da razão. As atitudes irracionais, como a dos iconoclastas que destruíam máquinas no dealbar da Revolução Industrial ou a dos niilistas que, recusando a sociedade tecnológica, optaram pelo regresso a formas de vida primitiva, tais atitudes nada resolvem. A televisão, os computadores fazem parte do nosso quotidiano, no trabalho e no lazer. Não os podemos ignorar nem destruir: temos é de utilizá-los como aliados para não sermos utilizados por eles como inimigos. E a leitura do livro que não nos foi imposto pela publicidade, o livro que escolhemos num acto crítico e inconformista, pode ser o remédio contra a alienação e a neurose provocadas pelos meios de difusão colectiva. Ouçamos, mas para as fixar e pôr em prática, estas sábias palavras do poeta Eugenio Montale: “O livro que o vento da moda traz na crista da onda pode ter ou não ter valor literário, mas é quase certo que quem se deixa seduzir por esse vento e compra o livro ‘de que se fala’ não é movido pela imperiosa necessidade de conhecer uma obra de arte, antes pela urgência de se conformar a uma suposta obrigação social, a de ‘estar actualizado’. Ora o ‘estar actualizado’ é uma das faces do moderno conformismo.”

Depois da dispersão e da despersonalização, há que regressar a nós próprios, ao silêncio da nossa intimidade para tentar reconstituir a unidade do nosso ser. E peço ainda a Eugenio Montale, Prémio Nobel da Literatura, as palavras apropriadas a sintetizar o que, talvez sem o conseguir, tentei dizer: “[...] mesmo no futuro, as vozes mais importantes serão as dos artistas que façam ouvir, através da sua voz isolada, um eco do fatal isolamento de cada um de nós. Neste sentido, pois, só os isolados falam, só os solitários comunicam; os demais - os homens da comunicação de massa - repetem, fazem eco, vulgarizam as palavras dos poetas que hoje não são palavras de fé, mas poderão, acaso, voltar a sê-lo algum dia”.»

 

 

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