+ Missão

+ A Fundação

+ Departamentos

+ Publicações

+ Eventos

+ Visitas de Estudo

+ Projectos Humanitários

+ Protocolos Institucionais

+ Contactos

+ Ligações

 

"Defesa e Divulgação da Língua
 e Cultura Portuguesa"

 

Colóquio
O Pensamento e a Obra de Afonso Botelho

 » voltar para Publicações

33





Vários Autores


COLECÇÃO LUSÍADA
Nº 33 | 338 páginas | 2005
Formato: 160 x 230 mm

P.V.P. 15,00€
Encomendar


A TRIPLA RAIZ DA SAUDADE (Na Estética e Enigmática dos Painéis)

«Ausência, distanciação do céu, da terra-mãe, do ser amado, no exílio, emigração, aventura e dom da Graça na presença e regresso: ida e volta será a dinâmica, em solução de opostos ou de antinomia, que constitui a tripla raiz do movimento da Saudade. Sua essência agindo em esquema tripartido de dialéctica e resolvido num terceiro momento ou termo. ‘’A alegria da chegada, a dor da partida e a infinita Graça ou liberdade, que permite esta viagem temporal, eis os momentos em que se mostra o princípio unitivo”, segundo Afonso Botelho. Os Painéis são “um espelho em que a saudade se contemplasse”.

Assim a saudade agiu no pensamento e vivência dos portugueses: e na sua História, criando seu acto superior, como Descobrimentos: realização do ser pátrio, como manifestação máxima de suas peculiares potências latentes; na imanência, como união de amor ecuménico entre os homens; na imanência e transcendência, como união de amor entre os homens e Deus.

Afonso Botelho, a partir duma meditação, levando a uma hermenêutica, sobre os Painéis, como ícone da Raça, e justamente no período da génese desse seu acto supremo universal, viu que o núcleo fulcral dessa génese estava na dinâmica da saudade, no seu movimento complementar de chegada e partida: e justamente representado pela figura dupla-una central sagrada, unificadora, doadora e condutora dessa comunidade pátria: como a que chega trazendo a essa comunidade a Graça, e logo parte de novo.

E génese, em “que trabalharam dos dois grandes homens da cultura portuguesa do ante-descobrimento: D. Duarte e Nuno Gonçalves”.

Lembremos somente alguns tópicos do ensino do Rei aos portugueses, que iria permitir essa génese, e que estão traduzidos nos seus Livros, Leal Conselheiro e Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela. Como mestrado para o “crescimento do ser” nas próprias palavras de Afonso Botelho, na Introdução a seu livro D. Duarte; maturidade dos portugueses necessária, e que permitiu a sua realização dos Descobrimentos: “mais do que prometia a força humana”, no dizer de Camões. E que, do mestre aos discípulos, necessitava esse princípio de “boas sequências”; assim, pela filosofia da lealdade e liberdade, um povo inteiro estaria pronto para essa obra sobre-humana. Nessa ensinança de cavalgar toda sela, aprendendo o uso da vontade, do poder, de “sser sem receo”, de “sseer assessegado”, de “seer solto”: que iria exercitar nesses feitos de Herói. E a saudade, meditada no Leal Conselheiro, está ainda ligada “ao étimo latino solu, que apenas é ultrapassado quando o português novo efectiva o seu destino de descobridor”, na aceitação “do outro e os laços criadores do amor ou da amizade” (cit., Introdução a D. Duarte).

Nos Painéis, a figura do Santo, sendo a única em movimento no meio das 60 outras, e postada ao centro delas, como comunidade unida em toda a sua diversidade e singularidade de cada um desses seus membros, está em movimento duplo-uno e simultâneo, na sua apresentação em ambos os lados dos Painéis, como coincidência de opostos. Entre ambas havendo essa preciosa dádiva da graça: mas num momento que é um reencontro, como algo de já conhecido e vivido.

Na saudade portuguesa, estará implicado, como necessidade, o peculiar assumir do tempo terreno no seu devir: pois só ele permite essa resolução duma antinomia. A sua força de união, como tripartida, estando também na Santíssima Trindade, na Terceira Pessoa, o Espírito Santo: pois, tal como a saudade, ligando e criando através do ritmo do amor.

Assim Afonso Botelho propõe que os Painéis sejam, como obra religiosa, os Painéis do Espírito Santo, e como obra de inspiração filosófica, os Painéis da Saudade. A saudade sendo assim no pensamento, acção e religião dos portugueses, como hipostasiada por um movimento de assunção: poderemos por nós supor. A relação espiritual estabelecida entre saudade e Espírito Santo, tendo origem na própria essência do povo português, segundo nosso Autor; assim também se afirmando o seu eminente carácter sagrado em inserção no catolicismo, peculiar a este povo, e concedendo-lhe outra dimensão teológica. Poderemos avançar: tendo sua raiz na “memoria Dei” de Santo Agostinho e na anamnese de Platão.

Ida e volta, chegada e partida do Santo: e ainda a ida de Cristo após sua Ressurreição e logo a vinda prometida do Consolador: “Vou e venho a vós”, como a promessa então feita aos Apóstolos e depois efectuada no Pentecostes; e promessa que o Santo justamente apresenta na página aberta do evangelho de S. João.

O pensamento, vivência e acção dos portugueses, trabalhando neste esquema cristológico, como movimento sagrado, criará mais um dos paradoxos constituintes da essência deste povo: o que realizou, assumindo tão completamente o tempo, um dos maiores feitos heróicos da história universal, inserindo-se assim na causalidade linear e irreversível do tempo, foi, simultaneamente também o povo do Ocidente mais vocacionado, e desde seus tempos arcaicos, para a profecia (tal como nos testemunha Sílio Itálico, sobre os dons de seus jovens, como augures célebres no Império romano), assim como o detentor singular da saudade e cultor do Espírito Santo: forças ultrapassando esse determinismo de causas e efeitos, na trans-história permitindo ver passado e futuro num único presente, eterno.

Serão estas três forças dinâmicas que os Infantes e Príncipes da Ínclita Geração conheceram e usaram para a génese da Descoberta: e que assim unidamente estão representadas nos Painéis. Tendo como matriz justamente o acto supremamente sagrado, assumido por essa Ínclita Geração, o Sacrifício.»

 

  Dalila Pereira da Costa

 » voltar para Publicações                                                                                                                            » voltar ao topo